Google fecha acordo de 20 anos com Constellation e viabiliza US$ 4,3 bilhões em investimentos em energia nuclear
O avanço da inteligência artificial está criando um novo gargalo para as grandes empresas de tecnologia: energia. Para ampliar data centers e infraestrutura computacional, não basta mais investir em chips, servidores e software. É preciso garantir eletricidade em escala e com disponibilidade contínua.
NOTÍCIASNEGÓCIOS
10/6/20265 min read


Parceria prevê 890 MW de nova capacidade nuclear, além de outros 2,7 GW de fornecimento de energia, e reforça a corrida das gigantes de tecnologia por eletricidade para sustentar a expansão da inteligência artificial
O avanço da inteligência artificial está criando um novo gargalo para as grandes empresas de tecnologia: energia. Para ampliar data centers e infraestrutura computacional, não basta mais investir em chips, servidores e software. É preciso garantir eletricidade em escala e com disponibilidade contínua.
É nesse contexto que o Google anunciou nesta terça-feira (6) um acordo de longo prazo com a Constellation Energy para ampliar a geração nuclear nos Estados Unidos. A parceria prevê a adição de 890 megawatts (MW) de capacidade nuclear ao sistema elétrico atendido pela PJM Interconnection, uma das principais redes de energia do país.
O acordo terá duração de 20 anos e permitirá que a Constellation invista mais de US$ 4,3 bilhões na modernização de 11 unidades nucleares localizadas em Illinois, Pensilvânia e Nova Jersey. A primeira ampliação de capacidade está prevista para entrar em operação em 2028.
Mais energia a partir de usinas existentes
Em vez de construir uma nova usina nuclear do zero, o projeto aposta no chamado nuclear uprate, processo que aumenta a capacidade de geração de reatores já em operação por meio da modernização de equipamentos.
Entre as intervenções previstas estão melhorias em turbinas, geradores de vapor e sistemas digitais de controle. Segundo Google e Constellation, os 890 MW adicionais equivalem aproximadamente à capacidade de uma nova grande usina nuclear, mas podem ser obtidos aproveitando uma infraestrutura que já existe.
A estratégia ganha relevância diante do crescimento acelerado da demanda por eletricidade nos Estados Unidos. Data centers utilizados por serviços de computação em nuvem e aplicações de inteligência artificial estão entre os segmentos que mais pressionam a necessidade de nova capacidade de geração.
A própria Google afirma que já viabilizou mais de 1,5 GW de nova capacidade nuclear nos Estados Unidos por meio de projetos de aumento de produção de reatores existentes e de instalações que estavam fora de operação.
Acordo envolve 3,59 GW de energia
Os 890 MW de nova capacidade nuclear são apenas uma parte da parceria.
Google e Constellation também fecharam um acordo separado de 15 anos envolvendo 2,7 GW de eletricidade adicional da frota da companhia no mercado da PJM. Somados, os contratos chegam a 3,59 GW de potência.
A diferença é importante: os 890 MW representam capacidade nuclear adicional que será criada por meio das modernizações. Já os outros 2,7 GW fazem parte de um acordo de fornecimento de energia da capacidade já existente da Constellation.
Na prática, o Google está garantindo uma parcela significativa de seu suprimento energético de longo prazo enquanto a Constellation obtém previsibilidade de receita para manter e ampliar seus ativos de geração.
IA começa a entrar na operação das usinas
A parceria também ultrapassa o fornecimento de eletricidade.
Como parte de um acordo tecnológico de cinco anos, a Constellation utilizará Google Cloud e Gemini Enterprise em suas operações. A proposta é desenvolver uma estrutura chamada “AI for Energy”, voltada à aplicação de inteligência artificial em diferentes etapas da operação do sistema energético.
Entre as aplicações previstas estão seleção de locais para novos projetos, modelagem do fluxo de energia, planejamento de conexão à rede, monitoramento da condição dos ativos, gestão de manutenção e otimização da geração.
A tecnologia também deverá ser utilizada na proteção de redes operacionais críticas, incluindo sistemas digitais ligados à infraestrutura elétrica.
A lógica é direta: enquanto a IA aumenta a demanda por energia, a própria IA passa a ser utilizada para tornar a infraestrutura energética mais eficiente e ampliar sua capacidade de resposta.
Pressão sobre a infraestrutura elétrica
A movimentação do Google ocorre em um momento em que as empresas de tecnologia disputam cada vez mais acesso à eletricidade nos Estados Unidos.
A região da PJM, que atende partes de 13 estados e do Distrito de Columbia, é especialmente relevante. O sistema abastece cerca de 67 milhões de pessoas e concentra uma parcela importante dos projetos de data centers do país.
A expansão desses centros de processamento criou uma situação inédita: empresas que tradicionalmente eram grandes consumidoras de tecnologia passaram a atuar também como compradoras estratégicas de energia.
O próprio sistema PJM vem discutindo propostas para que grandes consumidores, como data centers, apresentem mecanismos próprios para garantir sua demanda em momentos de maior pressão sobre a rede. O acordo entre Google e Constellation é apresentado pelas empresas como uma resposta a esse cenário.
Em vez de simplesmente aumentar o consumo sobre a infraestrutura existente, a estratégia passa a envolver a criação de nova capacidade para acompanhar o crescimento da demanda.
Energia nuclear ganha espaço na estratégia das big techs
A escolha da energia nuclear também revela uma mudança na estratégia energética das grandes empresas de tecnologia.
A fonte oferece geração contínua e baixa emissão de carbono, características importantes para data centers que funcionam 24 horas por dia. Ao mesmo tempo, construir novas usinas nucleares é um processo longo e caro.
Por isso, a modernização de reatores existentes tornou-se uma alternativa particularmente interessante.
O Google não está sozinho nesse movimento. A própria Constellation já fechou acordos com outras gigantes de tecnologia. Microsoft, Amazon e outras empresas vêm buscando contratos de longo prazo com operadores nucleares para garantir energia para suas operações digitais.
Na semana passada, por exemplo, a Constellation anunciou uma parceria com a Amazon envolvendo 690 MW da usina de Calvert Cliffs, em Maryland, com mais de US$ 3 bilhões em investimentos associados à modernização da instalação.
Investimento também movimenta empregos e infraestrutura
Além do impacto sobre o setor energético, o acordo terá efeitos econômicos nas regiões onde estão localizadas as usinas.
Segundo as empresas, o projeto ajudará a manter aproximadamente 4.400 empregos existentes e deverá gerar cerca de 7.200 novos postos de trabalho na construção durante a execução das modernizações.
A Constellation também passa a ter maior previsibilidade para seus ativos, enquanto o Google reduz parte do risco associado à disponibilidade futura de energia para sua expansão nos Estados Unidos.
É uma mudança importante na relação entre tecnologia e infraestrutura: investimentos que antes seriam responsabilidade predominante das empresas de energia passam a ser diretamente influenciados pelas necessidades das companhias de tecnologia.
A nova corrida da inteligência artificial passa pela energia
O acordo entre Google e Constellation mostra que a próxima fase da corrida pela inteligência artificial não será determinada apenas pela capacidade dos modelos ou pela disponibilidade de chips.
A infraestrutura física começa a ser tão estratégica quanto a digital.
Data centers maiores exigem mais servidores, que exigem mais eletricidade. A expansão da IA aumenta essa demanda em escala que pode pressionar redes elétricas inteiras. Como consequência, empresas como Google passaram a negociar diretamente contratos de energia, apoiar projetos de geração e participar do financiamento de infraestrutura.
Nesse cenário, energia nuclear deixa de ser apenas uma questão do setor elétrico e passa a fazer parte da estratégia de crescimento das maiores empresas de tecnologia do mundo.
O acordo de 20 anos com a Constellation representa, portanto, mais do que uma compra de energia. É uma aposta de longo prazo de que a expansão da inteligência artificial dependerá tanto da capacidade computacional quanto da capacidade de produzir eletricidade suficiente para sustentá-la.
Foto de capa gerada por IA.


